quarta-feira, 22 de outubro de 2008

‘’O CAPITALISMO SE APROXIMA DO FIM’’

ENTREVISTA COM IMMANUEL WALLERSTEIN , pesquisador do departamento de sociologia da universidade de Yale, ex-presidente da associaçao internacional de sociologia.



Signatário do manifesto do fórum social de Porto Alegre( doze propostas para um outro mundo possível), em 2005, o sr. é considerado um dos inspiradores para o movimento ‘’altermundialista’’. O sr. fundou e dirigiu o centro Fernand-Braudel para o estudo da economia dos sistemas históricos e das civilizações da universidade de Nova York, em Binghamton. Como o sr. situa a atual crise economico-financeira no ‘’longo período’’ do capitalismo ?

I.W : Fernand-Braudel( 1902-1985) distinguia o tempo da ‘’longa duraçao’’ , onde está implicada a sucessão, na história humana, dos sistemas q determinam a relaçao do homem com seu meio material e, no interior dessas fases, o tempo dos longos ciclos conjeturais, descritos por economistas como Nicolas Kondratieff( 1882-1930)ou Joseph Schumpeter( 1883-1950). Estamos, hoje, claramente na fase B do ciclo de Kondratieff, que começou há 30-35 anos, apoós uma fase A que a foi a mais longa( de 1945 a 1975) de quinhetos anos de de sistema capitalista.

Na fase A , o lucro é gerado pela produçao material ,industrial ou outra qualquer ; na fase B, o capitalismo deve , para continuar a gerar lucro, financeirizar-se e refugiar-se na especulaçao.Depois de mais de 30 anos, as empresas, os Estados e as instiuiçoes , se endividaram exorbitantemente. Estamos hoje na ultima parte da fase B de Kondratieff, quando o declínio imininente torna-se real e as ‘’bolhas’’ estouram uma atrás da outra : as falências se multiplicam, a concentração do capital aumenta, a taxa de desemprego sobe e a economia sofre uma deflaçao real.

Mas hoje, esse momento do ciclo coincide, e agrava, com um período de transiçao entre dois sistemas de longa duração . De fato, penso e entramos, após 30 anos, na fase terminal do sistema capitalista . A diferença fundamental dessa fase terminal em relação à sucessão interrompida dos ciclos conjeturais anteriores, é que o capitalismo nao consegue mais ‘’fazer sistema’’, no sentido em que o entende o físico e químico Ilya Prigogine( 1917-2003) : quando um sistema,biológico, químico ou social , é amiúde desviado de sua situaçao de estabilidade , ele nao consegue mais reencontrar o equilibrio. E o q acontece então, é uma bifurcação.

A situação se torna caótica , incontrolável pelas forças q a dominaram até aqui, e se vê surgir uma luta, nao mais entre mantenedores e opositores do sistema, mas entre todos os protagonistas , afim de determinar quem vai substituí-lo. Conservo o uso da palavra ‘’crise’’ para períodos como esse . Muito bem, estamos em crise. O capitalismo se aproxima do fim.


Por que nao se trata antes de uma nova mutação do capitalismo, que já experimentou a passagem do capitalismo comercial para o capitalismo industrial, e do capitalismo industrial para o capitalismo finaceiro ?

I.W : O capitalismo é onívoro, ele capta o lucro onde este é mais proeminente num dado momento ; ele nao se satisfaz com lucros marginais ;ao contrário, ele os maximiza estabelecendo monopólios- foi o que aconteceu recentemente com as biotecnologias e as tecnologias da informação. Mas eu penso que as possibilidades de acumulação real do capitalismo alcançou seus limites. O capitalismo, após seu nascimento na segunda metade so século XVI , alimentou-se do diferencial de riqueza entre um centro, para onde convergiam os lucros, e as periferias( nao necessariamente geográficas) cada vez mais empobrecidas.


Nesse sentido, a recuperaçao econômica da Ásia , da India, da América Latina, constitui um desafio insuperável para a ‘’economia-mundo’’ criada pelo ocidente , que nao consegue mais controlar os custos da acumulaçao.As 3 curvas mundias de preços de mão-de-obra, de matérias primas e impostos estão, em toda parte, em forte alta após décadas.
O curto período neoliberal que está acabando, converteu apenas provisoriamente a tendência : no fim dos anos 90, esses custos eram , com certeza, menos elevados que em 1970, mas eram bem mais consideráveis que em 1945. De fato, o último período de acumulação real – os ‘’trinta gloriosos’’- só tem sido possivel porque os estados keynesianos colocaram todas suas forças à serviço do capital. Mas, ainda assim, o limite foi alcançado.


Há precedentes dessa fase atual, tal qual o sr. a descreve ?

I.W : Houve vários precedentes na história da humanidade , ao contrário do que faz crer a representaçao , forjada na metade do século XIX, de um progresso contínuo e inevitável, aqui compreendido na sua versão marxista.Prefiro me restringir à tese da possibilidade de progresso, e não a sua inevitabilidade.Sem dúvida, o capitalismo foi o sistema q soube produzir, de maneira extraordinária , a maior quantidade de bens e riquezas .Mas é necessário também somar as perdas- para o meio-ambiente , para as sociedades-que este sistema perpetrou. O único bem é aquele que permite obter, para o maior número possível de pessoas, uma vida racional e inteligente.

Dito isso, a crise mais recente que se assemelha à crise atual , foi o desmantelamento do sistema feudal na Europa, entre os séculos XV e XVI, e sua subsituição pelo sistema capitalista . Esse período, que culmina com as guerras religiosas , vê o fim da influência das autoridades reais, feudais e religiosas sobre as comunidades camponesas e cidades. Foi assim que se deram, depois de tentativas seguidas e de maneira inconsciente, as soluçoes inesperadas que acabaram por ‘’fazer sistema’’ , até tomar a forma do sistema capitalista tal como o conhecemos hoje.


Quanto tempo durará a transiçao atual, e onde onde ela levará ?

I.W : O período de destruiçao de valor que encerra a fase B do ciclo de Kondratieff dura geralmente de 2 a 5 anos, até que as condições de início de uma fase A sejam reunidas para que o lucro real possa ser novamente tirado de novas produções materiais descritas por Schumpert.Mas o fato é que essa fase corresponde a uma crise do sistema que nos fez entrar num período de caos no qual os principais protagonistas , na chefia das empresas e dos Estados ocidentais , farão tudo o que for tecnicamente possível para reencontrar o equilíbrio, mas é muito provável que nao consigam.

Os mais inteligentes entre eles já compreenderam que é necessário colocar algo inteiramente novo no lugar.Porém, vários protagonistas agemde modo desordenado e inconsciente para encontrar novas soluções, sem que se saiba ainda o que sairá dessas tentativas.

Estamos num momento muito raro, onde a crise e a impotência dos poderosos dão lugar ao livre arbítrio de cada um : existe hoje um lapso de tempo no qual todos nós temos a possibilidade de influenciar o futuro com nossa ação individual.Mas como esse futuro será a soma do número incalculável dessas ações, é absolutamente impossível prever que tipo de sistema se estabelecerá.Daqui dez anos , veremos mais claramente ;em 30, 40 anos um novo sistema terá emergido.Creio ser possível a instalação tanto de um sistema mais explorador e violento que o capitalismo quanto ,ao contrário, de um sistema mais igualitário e distributivo.


As transformações anteriores do capitalismo por vezes resultaram no deslocamento do centro da ‘’economia-mundo’’ . Por exemplo : da bacia do mediterrâneo para a costa européia, e depois para os EUA. O próximo sistema terá seu centro na China ?

I.W :A crise que estamos vivendo corresponde também ao fim de um ciclo político, o da hegemonia estadunidense, iniciado em 1970. Os EUA ainda serão atores importantes, mas não chegarão a reconquistar sua posição dominante face à multiplicidade dos centros de poder , como Europa, China, Brasil e a India.Um novo poder hegemônico , se se pensa no ‘’longo período braudeliano, pode levar ainda uns 50 anos para se impor.Mas ignoro qual seja.

Com o tempo as consequências pollíticas da crise atual serão enormes , na medida em que os donos do sistema tentarão encontrar bodes expiatórios para o desmantelamento de sua hegemonia.Penso que pelo menos metade do povo americano não aceitará o que está para acontecer.Os conflitos internos se agravarão nos EUA, que está em vias de se tornar o país mais instável do mundo, politicamente falando. E lembre-se que, todos nós, americanos, temos armas.


http://www.tlaxcala.es/pp.asp?reference=6151&lg=po

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